Acordou, desfeito, enjoado,
em restos de bebedeira
da longa madrugada, saciada.
Uma crise passageira, pensou,
mas aquela dor no peito, de repente,
fê-los voltar, um a um,
mortos, ausentes, indiferentes,
companheiros de folia... num remake lento,
sangue no chão,
e tirou as medidas ao salão, que lhe pareceu bem maior.
Quantas vezes se pensara ali, descansado,
bela poltrona, charuto, sempre no porte atual,
caramba, não se via a envelhecer,
mas a vida fora um jato,
entre provas, obstáculos,
muita palmada nas costas, gravata, salamaleques.
Nem um filho, um irmão,
para a partilha de um caldo, de uma manta de burel,
sentia-se um condenado,
agonizando no chão.
E a letras já tremidas, pensou o último pedido.
Além disso, era Natal,
tempo de divindades, disponibilidades,
seria atendido.
E na dobra das esquinas, nos botequins,
no prédio mais plebeu,
um recado bem singelo, surgiu em pontas de luz,
anunciando aos homens,
"em Belém nasceu Jesus!",
ele, é que já não leu.
.
Helena Figueiredo (2009)
imagem publicada em http://triplov.com/triplo2/
1 comentários:
Apetece dizer: É para aprender!... Mas quem de nós aprendeu a a dar parte do que é seu, sem pensar que deu o que lhe possa faltar?!...
Pois é!... Não nos faz falta nossa fartura... falta-nos é uns centímetros de altura, o céu ao alcance de nossa humildade,
tão fraca é a Esperança na humanidade, o cultivo de Humana Cultura!...
Abraço
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