Enquanto esperavas o gosto de um beijo,
dissipou-se o nevoeiro e a vista é soberba.
De lá, o suão invadindo a fronteira,
de cá, a terra queimada ,um lençol verde.
A água corre branca, sabendo a frio,
adivinha-se a toca do coelho, junto à curva,
e a sombra parda da raposa,
colada às rodas de trás.
Enquanto esperavas o gosto de um beijo,
o menino continuou extasiado,
e a cegonha debicando o filhote, por cima da auto-estrada.
Contam-se os pés de mimosa florida,
que davam já para encher a primavera.
Enquanto esperavas o gosto de um beijo,
o dia rebolou sobre a noite,
apagando as luzes de néon,
e os altifalantes gritaram o teu nome.
Nasceu o bezerro do avô Geraldo,
e os patinhos cresceram na piscina.
Houve compota de medronho, apertada com laços de cetim,
e até de cartas, entupiu a caixa do correio.
Enquanto esperavas o gosto de um beijo...
Como se alguma vez, esse beijo pudesse ter gosto,
pudesse saber a açúcar, ou mesmo a sal,
como se algum dia, pudesse haver língua,
nesse mundo virtual!
Helena Figueiredo 2009
Foto retirada da net
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