O homem deixará pai e mãe, pela cidade dos deuses,
e no lugar do nascimento, hão-de formar-se teias,
porque tudo parece estar longe, do outro lado do tempo.
...
Por debaixo da farda que lhe deram à entrada,
o corpo desliza, sente vertigens,
um pó de asfalto picando a pele,
a ruela, é uma vereda,
e um aroma penetrante,
toca o cérebro num duelo,
um ritual,
um monte de gravetos,
a mãe de lenço branco,
a oração,
a massa levedada,
o doce pão, saído de um ventre ardido.
Só há aldeias.
Porque mesmo as pessoas que vivem nos grandes meios
escolhem sempre um canto, que lhes serve de aldeia,
um conjunto de casas,
e no meio das casas, há a casa. *
E no peitoril da janela, cresce um vaso de alecrim.
Helena Figueiredo
* Eduardo Lourenço (Prémio Pessoa 2011) em entrevista ao Jornal Expresso de 23 de Dezembro 2011 (Revista Atual, pág.11). Foto retirada da net.
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